Ao Meu Avô ou O Perdão
As crianças costumam ver em qualquer pessoa de cabelos brancos e ternura nos olhos um avô ou avó. E como os pais de meu pai moravam longe e o pai de minha mãe morrera antes de eu nascer, o tio de minha mãe cumpriu essa função. Foi-me, por toda a vida, o vovô Isaías. Como ele morava no Ipu e nós, em Sobral, acordava-se muito cedo para pegá-lo em casa antes da missa. Lembro-me que era um homem alto, de olhos azuis e um porte que o fazia elegante até mesmo nos pijamas que usava em casa (na casa de Sobral creio que ainda há um desses pijamas, de tecido simples mas muito macio, assim como eu lembro que ele era). Mas o que mais me impressionava era vê-lo usar a lupa para ler livros, documentos e jornais. Achava lindo quando ele usava para ler, parecia muito austero, coisa de quem precisava conhecer a fundo o que lia. Muitas vezes eu a roubei para brincar de detetive pela casa e ver as coisas pequenas se agigantarem na lente, mas se percebeu nunca brigou comigo.
Enquanto se esperava que ele voltasse da missa, eu ficava a voltear pela casa, daquelas casas antigas em que não se fazia forro para correr o vento e amainar o calor. Ficava a analisar os desenhos do piso, os retratos antigos na parede, o guarda-roupa grande de madeira bem escura, o mosqueteiro branco por cima da cama, o relógio de pêndulo e a linda mesa de jantar em mogno - que hoje tenho em minha casa e espero nunca ter que me desfazer dela por contenção de espaço. Felizmente ela é retrátil.
Jamais estranhei o fato de que eu e meus irmãos o chamávamos de avô, enquanto mãezinha o chamava de tio. Não era de se derramar em sentimentalismos, mas sei que ficava feliz quando nos via. Tinha aquele abraço bom, ancestral, de fazer a gente sentir que nada de mal poderia nos ocorrer enquanto estivéssemos ali. E toda vez que me via me chamava de cabocla. Era a única vez que lhe tinha raiva, pois achava cabocla uma palavra feia. Um dia meu pai o fez notar minha chateação e ele me disse: "Oh, minha filha, mas cabocla é moça bonita do sertão!". E a partir de então me recitava versos, do qual infelizmente só lembro mal e parcamente deste trechinho:
Cabocla, linda do arraial
Vinha lá, lá de longe
Dos recantos de Sobral
Cabocla linda do meu querer
Tu és, amor, tão linda
Quanto a flor do muçambê
O engraçado é que minha mãe diz que ele era diferente quando era mais novo. Mais sério, mais severo, daqueles adultos que inspiram medo. Por mais que tentasse, jamais conseguiria vê-lo assim. Mesmo menina e sem entendimento, eu sentia que naquela fala dela ainda havia um pouco de mágoa. Depois de alguns anos, isso me fez ver que é preciso tempo para dissolver os cantos mais duros e que a velhice pode nos trazer um apaziguamento até de nós mesmos. O que quer que tivesse se passado em sua vida já não existia mais, e ele podia ser só o nosso avô de cabelo branco e voz rouca, cheirando a sabonete Senador.
Num desses dias em que fomos à sua casa, chegamos bem cedo, ele ainda estava no quarto. Consegui me embiocar num dos quartos para ver ele colocando o paletó de ver a Deus. Enquanto ele punha o chapéu, minha mãe veio por trás e o surpreendeu com um abraço. "Oh, Zoraida!", foi tudo o que ele disse. E os dois se olharam e trocaram algumas palavras que eu não consegui entender, mas eles pareciam tão felizes como aqueles que conseguem descansar os corpos de uma carga deveras pesada. Aquilo me marcou fundo.
Era a primeira vez que eu via o perdão.
quarta-feira, setembro 27, 2006
Por que (diabos) eu escrevo...
A minha relação com a escrita é árdua e contraditória. Escrever para mim sempre foi uma necessidade, uma coisa que sei que faço bem e na qual coloco o que há de melhor em mim. Mas ao mesmo tempo não consigo escrever tanto nem da forma como eu gostaria, ou porque não me acho boa o suficiente ou porque o ato de escrever exige muito de você, e eu não sei se eu tenho tanto assim a dar. Várias vezes eu tinha pensado em desistir de escrever até que assisti a uma entrevista com a Rachel de Queiroz — e ela é a escritora que mais admiro porque ela escreve de forma simples, traçando as coisas da vida com a mesma fluidez que a vida age sobre nós — dizendo que tinha uma preguiça absurda de escrever, a tal ponto que se alguém fosse vasculhar as gavetas de sua escrivaninha não encontraria sequer o rascunho de algo novo ou projetos paralelos. Não que isso tenha me consolado de todo, mas se Rachel foi o que foi sendo uma preguiçosa, quem sabe eu não tenho esperança?
Acho que escrevo desde antes de saber como escrever. Quando eu era bem menininha eu vivia divagando comigo mesma a história da Pasta Poderosa (meu Deus, eu não acredito que eu tô falando nisso, mas lá vai...). Era a história de uma princesa que precisava salvar o seu reino e o príncipe que ela amava usando a Pasta Poderosa, a única arma capaz de acabar com o mal do mundo. Acontece que, naquela época, começaram a aparecer as primeiras pastas de dente coloridas e a Signal vinha com aquelas linhazinhas vermelhas, bem docinhas e sabe Deus por quê eu achava aquilo o máximo (ah, eu tinha três anos e morava em Sobral, vocês queriam que eu divagasse sobre o existencialismo em Sartre?). Foi daí que surgiu a história da Pasta. Mas o importante disso tudo é que eu pegava várias folhas de papel e ficava tentando desenhar as letras, pensando nas situações que a minha princesa precisaria enfrentar para salvar o dia. Pobre da minha princesa, nunca dei um final para a sua jornada...
Depois que eu fiz a alfabetização, as coisas foram piorando. Minha mãe trabalhava no INSS (que no meu tempo ainda era INPS) e lá tinha um monte de máquina de escrever (porque no meu tempo ainda não tinha computador). Aí eu ficava a manhã toda lá, escrevendo umas notícias como se fosse de jornal. Acho que eu ouvia na televisão ou no programa do Isaías Nicolau (precursor sobralense do Ratinho no rádio que a Jesus, minha babá, adorava ouvir) e escrevia tudo na máquina. Minha mãe até hoje guarda uma “notícia” que eu fiz para a Folha de São Paulo sobre um assassinato a faca, ainda por cima com tinta vermelha! Naquela época eu achava lindo uma pessoa que sabia escrever à máquina, os dedos dançando no teclado, o barulho que ela fazia quando se empurrava aquele rolo pra bater a frase seguinte. E foi aí que eu comecei a pensar em ser jornalista, porque achava que todo dia eu ia poder escrever minhas histórias na máquina de escrever, não só as que eu ouvia como também as que brotassem da minha cabeça.
E hoje? Bom, minha mãe fez uma ótima economia quando se recusou a pagar um curso de datilografia pra mim e meu pai perdeu a grande esperança de ter uma médica na família. Eu comprei meu computador (em três prestações que pareciam não ter fim!) e a partir de hoje decidi que não vou usá-lo apenas para escrever o que eu ouço dos outros, mas também aquilo que se passa em mim (não vou dizer no meu coração ou na minha alma ou mesmo minha mente depois de ter lido Merleau-Ponty). Eu poderia contar muito mais sobre a minha história com a escrita, mas além de preguiçosa eu escrevo devagar e apenas com dois dedos (viu como o curso de datilografia poderia ter sido útil?). Então eu vou indo que tem um monte de texto e trabalho à minha espera. Adeus.
quinta-feira, agosto 17, 2006
Prova dos Nove
Hoje é o meu segundo dia em São Paulo. Sempre quis conhecer essa cidade, não só pela grandeza, pelos museus, pela vida noturna ou mesmo pela promissora 25 de Março (será que eu encontro um mp3 player por menos de R$ 100?). Queria conhecer para ter a minha opinião sobre ela. Sim, porque São Paulo é um lugar que se ama ou se odeia, não dá pra ficar em cima do muro. Antes de vir, ouvi desde elogios rasgados sobre como a cidade é limpa, organizada e tem polícia em quase toda esquina até os mais velhos clichês sobre a selva de pedra cruel e desumana na qual eu seria assaltada, estuprada e morta. E como as coisas ruins quase sempre ecoam mais forte em nossos corações, os dias que antecederam a viagem foram muito difíceis. Fiquei me perguntando o que faria lá (quer dizer, aqui). Claro, vim com um objetivo justo e bem definido, que era pesquisar filmes para a minha dissertação e, de quebra, ter umas merecidas férias, saindo do esquema praia do Ceará. Mas depois fiquei com medo. E se não desse certo? E se eu não encontrasse o que eu estava procurando (e não estou falando somente da minha pesquisa)? E se eu acabasse passando quinze dias trancada em casa, com medo de sair na rua?
O que eu sei é que meus medos se desfizeram na hora que entrei no avião, na madrugada de terça-feira. Senti que eu precisava fazer essa viagem. Precisava de outra temperatura, outras roupas, outras comidas, outros cheiros, outras pessoas, outro eu. Precisava, sobretudo, de uma alternativa, nem que fosse por quinze dias. Gosto da minha vida em Fortaleza, da minha família, dos meus amigos, das minhas atividades. Mas tem horas que a gente se cansa de tudo: o pensamento tacanho, o machismo, as limitações, as pessoas que acham que sabem o que é melhor pra você, o calor, o forró desmantelado, tudo. Aí é hora de conhecer outras coisas, lidar com outros códigos, não importa se você vai se adaptar a eles ou não.
Um dia antes de viajar, meu irmão comentou que jamais teria coragem de ir a São Paulo sozinho por tanto tempo. E olha que ele é um homem de quase 30 anos! Então eu olhei pra ele e respondi: “É porque eu sou ousada!”. Parece uma resposta boba, vinda de uma caçula que quer provocar a família. Nunca na minha vida me senti ousada, apesar de morar sozinha desde os catorze anos e de outras coisas que nenhuma das minhas amigas fez ou viveu. Mas a verdade é que eu estava dizendo aquilo para mim mesma, que eu era corajosa e forte o suficiente para enfrentar o desconhecido. Que eu era diferente do restante da minha família, mais apegada ao lugar onde nasceram e a uma vida calma e previsível. Que não deixaria as pequenas coisas me afastarem do caminho que tracei para mim mesma. Que mesmo que tivesse que sofrer eu não desistiria, a despeito de todas as previsões ruins que costumam fazer sobre mim. Tem horas que a gente precisa ser mais forte do que nós mesmas. Encontrar forças que não conhecia ou mesmo que não tinha para lidar com essa vida-rapadura (que é doce, mas também é bem dura). Estou tentando. São Paulo é meu estágio probatório.
O que eu sei é que meus medos se desfizeram na hora que entrei no avião, na madrugada de terça-feira. Senti que eu precisava fazer essa viagem. Precisava de outra temperatura, outras roupas, outras comidas, outros cheiros, outras pessoas, outro eu. Precisava, sobretudo, de uma alternativa, nem que fosse por quinze dias. Gosto da minha vida em Fortaleza, da minha família, dos meus amigos, das minhas atividades. Mas tem horas que a gente se cansa de tudo: o pensamento tacanho, o machismo, as limitações, as pessoas que acham que sabem o que é melhor pra você, o calor, o forró desmantelado, tudo. Aí é hora de conhecer outras coisas, lidar com outros códigos, não importa se você vai se adaptar a eles ou não.
Um dia antes de viajar, meu irmão comentou que jamais teria coragem de ir a São Paulo sozinho por tanto tempo. E olha que ele é um homem de quase 30 anos! Então eu olhei pra ele e respondi: “É porque eu sou ousada!”. Parece uma resposta boba, vinda de uma caçula que quer provocar a família. Nunca na minha vida me senti ousada, apesar de morar sozinha desde os catorze anos e de outras coisas que nenhuma das minhas amigas fez ou viveu. Mas a verdade é que eu estava dizendo aquilo para mim mesma, que eu era corajosa e forte o suficiente para enfrentar o desconhecido. Que eu era diferente do restante da minha família, mais apegada ao lugar onde nasceram e a uma vida calma e previsível. Que não deixaria as pequenas coisas me afastarem do caminho que tracei para mim mesma. Que mesmo que tivesse que sofrer eu não desistiria, a despeito de todas as previsões ruins que costumam fazer sobre mim. Tem horas que a gente precisa ser mais forte do que nós mesmas. Encontrar forças que não conhecia ou mesmo que não tinha para lidar com essa vida-rapadura (que é doce, mas também é bem dura). Estou tentando. São Paulo é meu estágio probatório.
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